Educação inclusiva: especialistas defendem novas formas de ensinar

Currículo flexível, formação de professores e acessibilidade estiveram no centro dos debates do 4º Seminário Internacional de Educação Inclusiva do SESI, realizado em Fortaleza (CE)

Por: Sara Meneses - Agência de Notícias da Indústria
30/07/2026 - 22:38
Educação inclusiva: especialistas defendem novas formas de ensinar
Mais de 600 educadores, gestores, pesquisadores e especialistas participaram do primeiro dia do 4º Seminário Internacional de Educação Inclusiva do SESI, realizado em Fortaleza. Foto: George Lucas e Paula Amaral/FIEC
Fortaleza (CE) – Mais de 600 educadores, gestores, pesquisadores e especialistas de todo o país participam, nesta quinta-feira (30), do 4º Seminário Internacional de Educação Inclusiva do SESI, em Fortaleza (CE). Promovido pelo Serviço Social da Indústria (SESI), em parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) e o Conselho Nacional do SESI (CN-SESI), o encontro reúne especialistas brasileiros e internacionais para discutir estratégias capazes de tornar a educação mais acessível, equitativa e inclusiva.

Durante a cerimônia, o presidente da FIEC, Ricardo Cavalcante, destacou que a educação inclusiva é um compromisso essencial para a formação de cidadãos e profissionais preparados para os desafios do século XXI. Segundo ele, a pauta ocupa posição importante na atuação da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do SESI, que vêm fortalecendo políticas e iniciativas voltadas à construção de ambientes educacionais mais acessíveis e acolhedores.


O presidente da FIEC, Ricardo Cavalcante, abriu o seminário ao lado de representantes do Sistema Indústria e destacou a importância do diálogo entre especialistas e educadores. Foto: Leudo Lima/CNI

"A educação inclusiva é uma prioridade para a CNI, para o SESI e para o Sistema FIEC. Garantir que cada estudante encontre na escola não apenas conhecimento, mas também pertencimento, oportunidades e dignidade é um compromisso permanente. A força da nossa Rede está na troca de experiências e na construção coletiva de soluções que promovam uma educação cada vez mais acessível e de qualidade”, afirmou Ricardo Cavalcante.

Para o presidente do Conselho Nacional do SESI, Fausto Augusto Junior, a inclusão parte do papel da cidadania, como um direito de todos, e sua construção é feita a partir do debate de atores da sociedade, que fortalecem a democracia.


O presidente do Conselho Nacional do SESI, Fausto Augusto Júnior, participou da abertura do seminário, que reuniu representantes da Rede SESI de todo o país para discutir estratégias de educação inclusiva. Foto: Leudo Lima/CNI

"O SESI nasceu com a missão de incluir. Em 1946, sua fundação foi para promover a inclusão de um grupo da sociedade que não era olhado na época. Então, esse evento é importante para dialogarmos sobre nossas forças e nossas possibilidades. Nosso debate sobre inclusão não é para um grupo em específico, mas sim para todos, porque exercício de inclusão e de cidadania passa por um conjunto de valores por respeito ao outro, pela construção da empatia. E se nós acreditamos em uma sociedade de todos e para todos, nós precisamos construir escolas assim", afirmou.

Documento reúne diretrizes para a Rede SESI

Um dos momentos da abertura foi a entrega do Documento Orientador – Educação Inclusiva nas Escolas da Rede SESI, publicação elaborada pelo Departamento Nacional com a contribuição dos departamentos regionais do Acre, Bahia, Ceará, Goiás, Paraíba, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

O documento reúne diretrizes para orientar a organização da educação inclusiva nas escolas da Rede SESI e fortalecer práticas pedagógicas mais acessíveis, equitativas e alinhadas ao novo marco regulatório da Educação Especial na perspectiva inclusiva. Segundo o superintendente de Educação do Departamento Nacional do SESI, Wisley Pereira, o próximo passo é transformar as diretrizes em ações concretas nas escolas.

"Nossa estratégia é implementar essas orientações por meio do Centro de Formação, preparando multiplicadores que vão capacitar cerca de 13 mil professores em todo o país. A expectativa é que, em 2027, já possamos compartilhar os resultados dessa implementação nas escolas", afirmou.


A programação do primeiro dia reuniu participantes de diferentes estados em um espaço voltado ao intercâmbio de experiências e boas práticas. Foto: George Lucas e Paula Amaral/FIEC

Ensinar respeitando as diferenças

A programação técnica começou com a palestra magna "Desenho Universal para Aprendizagem como Estratégia de Inclusão Escolar", ministrada pelo professor e pesquisador espanhol Eladio Sebastián Heredero, referência internacional em currículo, formação de professores e inclusão educacional.

Heredero defendeu que a educação inclusiva não se limita às pessoas com deficiência. Segundo ele, a escola precisa reconhecer que cada estudante aprende de uma forma e planejar o ensino para atender à diversidade presente em sala de aula.

Como estratégia para tornar esse modelo possível, o pesquisador apresentou o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA). A abordagem se baseia em três princípios: oferecer diferentes formas de engajar os estudantes, apresentar os conteúdos por diversos meios e ampliar as possibilidades para que cada aluno demonstre o que aprendeu.

Na prática, o pesquisador defendeu que pequenas mudanças no planejamento das aulas já tornam o ensino mais inclusivo. Entre elas estão deixar claros os objetivos de cada atividade, permitir que os estudantes façam escolhas, utilizar recursos variados, como leituras, vídeos, debates e ferramentas digitais, relacionar novos conteúdos aos conhecimentos prévios da turma e diversificar as formas de participação e avaliação, com alternativas como portfólios, avaliações entre pares e checklists.

"Precisamos propor currículos para diferentes alunos, oferecer múltiplas formas de motivação e engajamento, diferentes maneiras de apresentar os conteúdos e diversos meios para que os estudantes expressem o que aprenderam. Se pensamos em nós como pessoas diferentes, como podemos pedir que nossos alunos sejam iguais e sejam avaliados da mesma forma? Os estudantes precisam ter diferentes formatos de provas."

Para Heredero, muitas práticas inclusivas já fazem parte da rotina dos professores, mesmo sem receberem esse nome. Ele destacou que adaptar a forma de ensinar é uma prática cotidiana e que o desafio é transformá-la em uma estratégia intencional para garantir que todos aprendam.

"Quando pedimos para um aluno explicar um conteúdo, mostramos um tema no quadro ou utilizamos diferentes recursos para ensinar, já estamos apresentando o conhecimento de formas diferentes. Precisamos facilitar a aprendizagem e cuidar da comunicação com nossos alunos."


Educadores acompanharam as atividades do seminário, que promoveu reflexões sobre os desafios da educação contemporânea. Foto: George Lucas e Paula Amaral/FIEC

Autismo amplia o debate sobre práticas inclusivas

Na sequência, a mesa-redonda "Autismo em Perspectiva: Neurodesenvolvimento, Desenho Universal para Aprendizagem e Práticas Educacionais Inclusivas" reuniu Eladio Sebastián Heredero e o neuropediatra André Cabral, com mediação da gerente de Formação em Educação do Departamento Nacional do SESI, Kátia Marangon.

O debate abordou os desafios da inclusão escolar de estudantes com transtorno do espectro autista (TEA) e reforçou que a aprendizagem depende de estratégias pedagógicas capazes de reconhecer as necessidades de cada estudante. Os especialistas também destacaram a importância do trabalho conjunto entre escola, famílias e equipes multidisciplinares.

Para Heredero, o principal desafio é transformar a escola para atender à diversidade dos estudantes, em vez de esperar que eles se adaptem ao modelo tradicional de ensino.

"O desafio não é fazer a criança se adaptar à escola, mas adaptar a escola para que ela consiga aprender. Já temos muitos recursos e estratégias. O que falta é reorganizar a escola e o currículo para atender melhor todos os estudantes."

Ao comentar o Plano de Ensino Individualizado (PEI), Heredero explicou que a ferramenta deve estar integrada ao currículo e servir como apoio ao trabalho pedagógico, sem substituir a necessidade de transformar a escola.

"O Plano de Ensino Individualizado não é fazer qualquer coisa para um estudante. Um PEI bem elaborado parte do currículo e organiza estratégias para garantir que esse aluno tenha acesso à aprendizagem, mas ele não substitui a necessidade de transformar a escola."

Ao mediar o debate, Kátia Marangon destacou que as escolas vivem diferentes momentos na construção da educação inclusiva e que o compartilhamento de experiências fortalece esse processo.

"Hoje convivemos com diferentes estágios de desenvolvimento da educação inclusiva nas escolas. As ideias apresentadas aqui não competem entre si, elas se complementam e precisam ser valorizadas."

As atividades do IV Seminário Internacional de Educação Inclusiva do SESI continuam nesta quinta-feira (31), no SESI Barra do Ceará, com oficinas formativas voltadas a educadores e profissionais da área. A programação será encerrada com a palestra "Cuidar para Inspirar: A importância de acolher quem educa", ministrada pelo professor Fernando Lauria, além de apresentações culturais.

Confira aqui as fotos do evento.