Alumínio naval e painéis solares: conheça engenharia por trás da Embarcação Copaíba
Desenvolvido pelo SESI, CN-SESI e Ministério da Saúde, no Pará, embarcação utiliza engenharia baseada em tecnologia e sustentabilidade para ampliar o acesso à saúde em regiões ribeirinhas
Por: Portal da Indústria com contribuições do Conselho Nacional do SESI e FIEPA19/05/2026 - 16:00
Já pensou até onde a tecnologia e a sustentabilidade podem chegar juntas? E se, além disso, fosse possível integrar saúde, conectividade e engenharia em uma única estrutura capaz de navegar por algumas das regiões mais desafiadoras da Amazônia?
Foi a partir dessa proposta que nasceu a embarcação SESI Saúde Conectada – Copaíba, iniciativa desenvolvida por meio de um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) entre o Serviço Social da Indústria (SESI), o Conselho Nacional do SESI (CN-SESI) e o Ministério da Saúde (MS), com co-realização do SESI Pará e da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), além do apoio técnico da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Fundação Guamá.
Para o diretor-superintendente do SESI, Paulo Mol, a embarcação Copaíba é muito mais que um meio de transporte. "O barco funciona como uma unidade de atendimento equipada com tecnologia que permite conexão remota com profissionais de saúde. É a tecnologia sendo utilizada para aproximar pessoas, superar distâncias e ampliar o acesso à saúde", afirma.
Criada para ampliar o acesso à saúde na Amazônia, a embarcação foi desenvolvida para levar atenção primária - com ações de prevenção, acompanhamento clínico e monitoramento de doenças crônicas - a trabalhadores de comunidades ribeirinhas, integrando tecnologia, conectividade e soluções sustentáveis adaptadas aos desafios dos rios amazônicos.
O presidente do Conselho Nacional do SESI (CN-SESI), Fausto Junior, enfatiza a importância da parceria entre os entes para possibilitar a concretização do projeto. “Navegar pelos rios amazônicos levando atendimento à população dialoga diretamente com a nossa história e com o nosso compromisso social", diz Fausto. "Acreditamos no SUS, na complementaridade e na construção conjunta de caminhos para fazer a saúde chegar a todos os brasileiros”, completou.
“Este projeto mostra o que acontece quando instituições, poder público, universidade, empresas e sociedade dão as mãos. Esse é o grande exemplo que o Copaíba traz para a Amazônia e para o Brasil", colabora o presidente da FIEPA, Alex Carvalho.
Engenharia voltada para a Amazônia
Desenvolver uma embarcação para a Amazônia exigiu soluções muito diferentes das utilizadas em projetos navais convencionais. A variação constante do nível dos rios, a formação de bancos de areia, a presença de troncos submersos e as longas distâncias percorridas tornaram necessário um modelo capaz de operar com segurança, estabilidade e eficiência em diferentes cenários da navegação fluvial.
Para entender os desafios técnicos e estruturais do projeto, a Agência de Notícias da Indústria conversou com o professor Hito Braga de Moraes, coordenador do projeto e diretor-geral do Instituto de Tecnologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), que participou do desenvolvimento da embarcação desde as primeiras etapas do projeto.
Segundo o pesquisador, as características naturais da região exigiram soluções específicas de engenharia para garantir segurança e eficiência durante a navegação. “A região amazônica não se comporta como um ambiente fluvial convencional. Isso obriga o desenvolvimento de uma embarcação com baixo calado, boa estabilidade, casco resistente a impactos e elevada capacidade de navegação”, explica Moraes.
Construída em alumínio naval, a embarcação Copaíba possui 15 metros de comprimento e seis metros de largura. O material foi escolhido para garantir leveza, resistência e melhor desempenho energético durante a navegação. O casco também foi projetado para reduzir resistência ao avanço, diminuir a formação de ondas e proporcionar mais estabilidade mesmo em rios com condições adversas.
Segundo o pesquisador, a engenharia da embarcação buscou integrar arquitetura naval, eficiência energética e função social em um único projeto.
“A embarcação deixou de ser apenas um meio de transporte e passou a funcionar como uma plataforma fluvial multifuncional. O projeto priorizou um casco de alta eficiência, otimizado para baixas velocidades, proporcionando mais conforto durante a operação”, afirma.
Hito aponta a embarcação como uma contribuição importante para a descarbonização do transporte fluvial ao combinar propulsão híbrida, gestão energética, energia solar e otimização hidrodinâmica.
“Esses fatores representam uma mudança de paradigma para o desenvolvimento científico do transporte na Amazônia, que passa a ser vista como ambiente de inovação, referência em soluções fluviais e laboratório mundial de sustentabilidade aplicada”, destaca.
Energia limpa e operação silenciosa
A sustentabilidade foi incorporada desde a concepção da embarcação. O modelo foi desenvolvido com um sistema híbrido de propulsão, combinando motores de alta eficiência, bancos de baterias e geração de energia solar para garantir maior autonomia durante a navegação.
Na prática, os 25 painéis fotovoltaicos instalados na cobertura complementam o carregamento das baterias que alimentam os dois motores elétricos responsáveis pela propulsão da embarcação. O sistema também fornece energia para iluminação, telecomunicações e estruturas de atendimento remoto embarcadas.
“Com essas premissas, foi necessário buscar um sistema híbrido, combinando motores de alta eficiência, bancos de baterias e geração solar, com o objetivo de reduzir consumo, operar silenciosamente nas comunidades e diminuir emissões locais”, explica o professor.
Segundo ele, o projeto também busca reduzir consumo de combustível, geração de resíduos e impactos sobre margens e comunidades ao longo dos rios amazônicos.

Para Dário Lemos, superintendente Regional do SESI Pará, a embarcação é um exemplo claro de como a indústria pode contribuir diretamente para transformar a realidade da Amazônia por meio da inovação.
"O projeto foi pensado em conjunto com diferentes instituições para compreender as necessidades dos trabalhadores das comunidades ribeirinhas e, a partir disso, desenvolver uma solução capaz de ampliar o acesso à saúde na região. Integrar tecnologia, sustentabilidade e atendimento em um único projeto foi um desafio, mas também o que tornou possível criar uma embarcação adaptada à realidade amazônica, o que é um traço das iniciativas desenvolvidas pelo SESI Pará", afirma Lemos.
Embarcação Copaíba zarpa nesta quarta (19)
A embarcação inicia seus primeiros atendimentos entre os dias 19 e 22 de maio, em Barcarena, no nordeste do Pará. A operação marca o começo da atuação da unidade fluvial voltada ao atendimento de trabalhadores de comunidades ribeirinhas em regiões onde o deslocamento pelos rios ainda representa um desafio para o acesso à saúde.
Os atendimentos ocorrerão no Porto do Complexo Comercial de Barcarena, em parceria com a empresa Hidrovias do Brasil, com foco inicial no programa Hiperdia, voltado ao acompanhamento e controle da hipertensão e do diabetes.
Durante a ação, será realizada coleta de dados clínicos, aferição de pressão arterial e exames rápidos (point of care) para identificação de infecções, doenças virais e monitoramento de doenças crônicas. A equipe embarcada será formada por piloto, marinheiro, enfermeira e duas técnicas de enfermagem.
A atuação será integrada à rede municipal de saúde, permitindo encaminhamentos complementares e fortalecendo o acesso ao atendimento em localidades onde o cuidado médico ainda depende de longos deslocamentos fluviais.
“O impacto potencial vai muito além da criação de um ‘consultório flutuante’. O principal impacto talvez seja reduzir a desigualdade de acesso à saúde, principalmente na Amazônia, onde milhões de pessoas dependem exclusivamente dos rios para deslocamento, abastecimento e acesso médico. Projetos assim reconhecem que a lógica amazônica exige soluções amazônicas”, finaliza o professor Hito Braga de Moraes.